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Bater o pé com dignidade

por José Henrique Cunha, em 30.12.08

«Num dia qualquer perdido na memória dos habitantes de Resistencia, no Chaco, viu-se caminhar pelas suas ruas quentes e húmidas um forasteiro que levava uma guitarra e conversava amigavelmente com um cão de raça desconhecida que o acompanhava com fidelidade de sombra. O desconhecido bateu à porta de uma pensão e, depois de se apresentar como artista ambulante - mais precisamente, cantor de boleros - perguntou se ele e os eu cão podiam hospedar-se ali.

- Desde que respeitem as horas de seste. Você não canta e o cão não ladra - foi o que lhe responderam.

É comprida a sesta no Chaco. As horas de descanso passam lentas e aprazíveis como as águas do Paraná. Sob o rigor canicular, as brisas afastam-se para territórios que ninguém conhece, não canta o pássaro-forneiro, o bagre fecha os olhos redondos no fundo do rio e as pessoas abandonam-se a um torpor profundo e benéfico.

Poucos dias depois de chegar, o cantor adormeceu para sempre numa sesta. Quando se descobriu o triste facto, o dono da pensão e a gente da terra verificaram que sabiam muito pouco, quase nada, daquele homem.

- Um dos dois dá pelo nome de Fernando, mas não sei se é ele ou o cão - disse alguém.

Depois de sepultarem o cantor, e como forma de respeitarem a sua memória, os moradores de Resistencia decidiram adoptar o cão, deram-lhe o nome de Fernando e organizaram-lhe a vida: o dono de uma tasquinha comprometeu-se a dar-lhe todas as manhãs uma caneca de leite e dois croissants. O cão Fernando tomou o pequeno-almoço durante doze anos na mesma tasca e na mesma mesa. Um magarefe decidiu servir-lhe todos os dias ao almoço um pedaço de carne com osso. O cão Fernando comparaceu pontualmente ao encontro durante toda a sua vida. Os artistas do Fógon de los Arrieros, uma casa sem portas em que os caminhantes ainda encontram lugar de repouso e chá-mate, aceitaram o cão Fernando como sócio da instituição, onde se destacou como implacável crítico musical. Talvez herdado do seu primeiro dono, o cão possuía um agudo sentido da harmonia e, de cada vez que um músico desafinava, tinha de suportar a reprimenda dos uivos do Fernando.

Mempo Giardinelli contou-me que, durante um concerto de um prestigioso violonista polaco em itinerância pelo Noro - este argentino, o cão Fernando escutou atentamente do seu lugar da primeira fila, de olhos fechados e orelhas atentas, até que uma fífia do musico o fez soltar um uivo desgarrador. O violonista suspendeu a interpretação e exigiu que levassem o cão para fora da sala. A Resposta dos chaquenses foi rotunda:

- O Fernando sabe o que faz. Ou toca bem ou vai-se embora você.

Durante doze anos, o cão Fernando passeou à sua vontade por Resistencia. Não havia boda sem os alegres latidos do Fernando enquanto os recém-casados dançavam um chamané. Se o Fernando faltava a uma velório, era um grande desprestígio, tanto para o morto como para os parentes.

A vida dos cães infelizmente é breve, e a do Fernando não foi excepção. O seu funeral foi o mais concorrido de que há memória em Resistencia. As notas necrológicas encheram de pesar os periódicos locais, incontáveis paraguaios atravessaram a fronteira para manifestar a sua sentida compaixão, os caciques da política cantaram loas às suas virtudes de cidadania, os poetas leram versos em sua honra e uma subscrição popular financiou o seu monumento, que se ergue diante da sede do governo, mas de costas para ela, isto é, virando o cu ao poder.

Aqui há semanas, eu e o meu filho Sebastián, que está a iniciar-se nos seus itinerários amados, saímos de Resistencia para atrevessar o Chaco impenetrável. No limite da cidade, lemos pela última vez o letreiro que diz: "Benvindos a Resistencia, cidade do Cão Fernando".»

 

"Fernando" em As Rosas de Atacama de Luis Sepúlveda

 

Vem este texto do escritor chileno a propósito... 

O rigor, exigência e competência não podem estar dissociados de verticalidade, mesmo que esta virtude signifique a rotura com um partido que assegura uma base de apoio significativo para umas eleições autárquicas.

Não há amor por Caldas das Taipas que, numa análise séria, desinteressada e apartidária, oculte a desconsideração da Câmara Municipal de Guimarães a Caldas das Taipas, ou se quiserem, o desencontro estratégico para um desenvolvimento global de um concelho ao invés de uma centralização asfixiante.

 

Tenho por certo que uma candidatura independente mereceria outro respeito, consenso e uma dinâmica positiva com grandes possibilidades de conseguir um excelente resultado nas próximas autárquicas para a Junta de Freguesia de Caldelas. Porventura, melhor, embora já tenha sido muito bom, do conseguido pelo perecido Manuel Marques da Silva com a UT.

Nas Autárquicas de 2001 a apresentação, friso bem a apresentação, de uma lista independente (Unidos pelas Taipas, podia até ser outra qualquer) iniciou efectivamente uma verdadeira mudança dando corpo a um sentimento de desagrado dos taipenses. Pena que este movimento não tenha tido horizontes largos coalescendo-se ao PSD e, que de certa forma, gerou o actual executivo da Junta de Freguesia.

 

O ónus da sigla do PS e a quase certa bipolarização (sem CDS, MTAC e CDU em declínio) são factores a ter em atenção nas autárquicas que se avizinham na nossa vila. 

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José Henrique Cunha

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