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26 de Abril de 1974 - O Dia Seguinte

por José Henrique Cunha, em 26.04.10

 

 

Primeiro Encontro da JSN com a Imprensa, no Posto de Comando. Jornal A Capital do dia 26 de Abril de 1974

 

 

 

Jornal A Capital, do dia 26 de Abril de 1974.
Página 2

Eram 8 e 13 em ponto quando os dois carros que transportavam os membros da Junta de Salvação Nacional estacionaram junto do posto de comando do quartel do Regimento de Engenharia N.º 1, na Pontinha, onde a nossa equipa de reportagem, tal como as dos outros órgãos de Informação nacionais e estrangeiros se encontravam desde as primeiras horas da madrugada, aguardando a anunciada primeira conferência de Imprensa que iria ser dada pelos membros da Junta.
Alguns minutos mais de espera e, depois, foi dada ordem para entrarmos na ampla sala onde telefones, rádios e postos de transmissão forneciam indicações constantes ou retiniam pedindo indicações para uma acção mais eficaz das Forças Armadas. Foi à volta da mesa que se encontrava ao centro da sala que tomaram lugar, em pé, todos os representantes dos órgãos de Informação e os membros da Junta de Salvação Nacional, entre os quais o General Spínola, único dos oficiais que se encontrava fardado.
Foi precisamente o General Spínola quem iniciou a histórica conferência de Imprensa com a seguinte declaração:

- É esta a primeira vez que a Junta de Salvação Nacional entra em contacto com a Imprensa. Antes de mais, desejo agradecer a forma patriótica como a Imprensa acompanhou o Movimento das Forças Armadas e, para além desse agradecimento, eu formulo votos para que a Imprensa, dentro de uma liberdade de expressão que vai passar a ter, saiba efectivamente cumprir o alto dever que lhe compete para com a Pátria, no esclarecimento do nosso bom povo português. A todos o Movimento das Forças Armadas e a sua Junta de Salvação Nacional agradece.

Programa
E o General Spínola acrescentou ainda:

- Vai-lhes ser fornecido, dentro de momentos, o programa do Movimento das Forças Armadas portuguesas, programa em que são definidos os traços gerais da orientação que vai ser respeitada pela Junta no desenvolvimento da sua acção nesta fase histórica do nosso País.

Seguiu-se a conferência de Imprensa em que cada um dos representantes dos órgãos de Informação ali presentes teve oportunidade de fazer as perguntas que lhe pareciam ser mais importantes e exigir resposta urgente. A primeira questão incidiu sobre a atitude da Direcção-Geral de Segurança perante os acontecimentos:

«Já foi chamada a atenção da Direcção-Geral de Segurança e creio bem que passará a agir por forma a que não mereça mais quaisquer reparos do povo português.»

Nesta altura interveio a equipa de reportagem da televisão espanhola, perguntando ao General Spínola qual tinha sido o resultado da reunião da Junta efectuada esta noite:

- Foi a revisão do programa do Movimento das Forças Armadas portuguesas, que neste momento distribuo à imprensa.

- Qual será, sr. presidente, a política de Portugal em relação às colónias do Ultramar?

- A política que for definida no consenso do País.

- Poderíamos perguntar onde se encontram o presidente Américo Thomaz e o dr. Caetano?

- Partiram já de avião para o Funchal.

- Qual será, sr. presidente, a política de Portugal neste momento?

- Vai ser uma linha de abertura a soluções de evolução a um futuro de progresso de Portugal no seu todo pluricontinental.

Povo português tem reacção magnífica.
- Pode falar-me da reacção do povo português?

- Magnífica. Ultrapassou largamente todas as expectativas.

- Houve vítimas?

- Creio que não.

- Mantém-se algum foco a enfrentar as Forças Armadas?

- Creio que não. Se houve alguns tiros foram esporádicos. Acções de fogo não houve.

- Quer dizer algumas palavras para Espanha, que neste momento está expectante perante os acontecimentos que se estão a desenrolar em Portugal?

- Creio bem que a nova orientação que vai ser imprimida à política portuguesa muito facilitará as relações de Portugal com a Espanha.

Finda esta intervenção dos repórteres da T.V.E., a conferência de Imprensa prosseguiu com uma pergunta da nossa equipa de reportagem.

- Já foi dada alguma directiva aos Governos do Ultramar?

- Neste momento ainda não.

A pergunta seguinte relacionou-se com a extinção do exame prévio «e de outros organismos que têm limitado a comunicação com o público».

- O programa do Movimento das Forças Armadas, que vai ser distribuído, responde cabalmente à pergunta que me faz: a abolição da censura e exame prévio, com restrições relativas ao segredo dos aspectos militares nesta fase que ainda atravessamos no nosso Ultramar.

- A Lei de Imprensa será revista?

- Também está prevista a sua revisão nos termos constitucionais.

A nossa equipa de reportagem interveio novamente para esclarecer um dos mais importantes aspectos da proclamação feita ao País – o que se relaciona com a possibilidade de o País voltar a dispor de um pluralismo político. No caso do Partido Socialista ou do movimento da C.D.E., por exemplo, será que terão possibilidade de existir legalmente?

- Tudo leva a crer que sim.

Outro jornalista presente insistiu no problema da Direcção-Geral de Segurança: será que vai continuar a existir? O General Spínola foi taxativo na sua resposta:

- Está prevista a extinção da Direcção-Geral de Segurança, apenas com restrições em relação ao Ultramar, enquanto as operações militares o exigirem.

- Pode-se saber o nome do «leader» do movimento?

- Aí está uma resposta muito difícil. É um movimento colectivo das Forças Armadas. É um movimento sem «leader».

Liberdade de Imprensa
- As notícias relativas ao próprio movimento que está a decorrer terão de ser submetidas ao exame prévio ou ficarão à responsabilidade dos jornais e dos seus respectivos directores?

- As actuais, deste movimento, ficam já à responsabilidade dos jornais.

- E as outras, que se sucederão neste espaço de tempo até o exame prévio ser abolido?

- Também. Mas dentro de muito pouco tempo recebem já indicações precisas a esse respeito.

As perguntas que se seguiram, até ao final da reunião, foram feitas pelos nossos repórteres:

- A Junta pensa estabelecer alguns contactos com os dirigentes dos movimentos de guerrilhas?

- Neste momento não.

- Qual é a situação dos presos políticos neste momento?

- Também vão ser soltos. A ideia é a de que sejam todos os presos políticos, com excepção feita, evidentemente, àqueles que, para além de problemas ligados a ideologias políticas, tenham também cometido crimes classificados no Código Penal.

- Qual é a posição do Movimento em relação à emigração?

- Por enquanto, é um problema que vai entrar em auscultação.

- E em relação aos refugiados políticos, à sua vinda para Portugal?

- Esses serão abrangidos, evidentemente, pelas medidas a que há pouco me referi.

- Uma última pergunta: qual a posição do Movimento em relação às empresas multinacionais?

- São problemas sobre os quais nos iremos debruçar.

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José Henrique Cunha

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